MÁRIO FAUSTINO:
FAZER POÉTICO; AVANÇOS E VACILAÇÕES
Os
estudiosos da obra literária de Mário Faustino em geral ressaltam o papel do
poeta como mediador entre dois polos estilísticos, tradição e vanguarda. É relevante, portanto, repensar o significado do termo vanguarda, para caracterizar os
movimentos literários que surgiram no Brasil, após o Modernismo de 1922.
A
palavra moderno, na acepção latina, modernus, historiada por Hans Robert Jauss (1), teria surgido em fins do século V, para distinguir
o presente, que se tornou oficialmente cristão, em relação à tradição romana e
pagã.
O
termo moderno, como resultado de uma transição do velho para o novo, é também
retomado por Habermas que o apresenta como sinônimo de vanguarda e, conforme
ainda alguns autores, quando limitam o conceito de modernidade à Renascença, à
medida que se forma a consciência de uma nova época, mediante renovada relação
com a antiguidade.
Mesmo
referindo-se ao modernismo – o mais recente – Habermas acrescenta que esse
movimento estabelece simplesmente uma
oposição abstrata entre a tradição e o presente; e de certa forma, ainda
permanecemos contemporâneos daquela espécie de modernidade estética surgida em
meados do século XIX (2).
Octávio
Paz, ao partilhar das reflexões de Baudelaire – em L’Art romantique – assevera
que desde os princípios do século passado é atribuído à modernidade o caráter
tradicional. Ampliando seu ponto de vista, acrescenta que, neste caso, está
diante de uma outra tradição que se manifesta num sentido polêmico: A modernidade é uma tradição polêmica e que
desaloja a tradição imperante, qualquer que seja esta; porém desaloja-a para um
instante após, ceder lugar a outra tradição que, por sua vez, é outra
manifestação momentânea da atualidade. A modernidade nunca é ela mesma: é
sempre outra (3).
Essa outridade moderna é
implícita nas colocações de Haroldo Rosemberg (4),
quando confere ao novo o caráter de entidade autossuficiente, uma vez que a
cada surgimento, o novo funda a sua própria tradição, embora nutrido de
contradições e paradoxos, como no caso da poesia ocidental, cujos princípios
estéticos oscilam entre as preferências que consistem na imitação dos antigos e
entre predileções que exaltam a novidade.
No
âmbito da poesia brasileira, para Affonso Ávila pode repercutir falso
considerar o movimento de 1922 como fato
literário autônomo, desvinculado das linhas gerais de desenvolvimento do
processo de nossa cultura (5). É a
partir deste pressuposto que Ávila aponta o descaso dos estudiosos no assunto
quando insistem em ressaltar apenas o aspecto radical da ruptura modernista,
ignorando em contrapartida as transformações cumulativas verificáveis no modo
de produção do artista, ao longo dos tempos, sempre vinculado, portanto, ao
meio cultural em que vive. Dessa forma, o crítico destaca o Modernismo como
desdobramento de outros estilos, a exemplo do Barroco e do Romantismo, numa
outra etapa maior e ciclicamente definida. Daí que, ao pensar o “Projeto
Literatura Brasileira”, dentro de um raio de maior abrangência crítica, o autor
surpreende em cada um desses movimentos citados uma série-chave de elementos de
estrutura, nos planos lingüístico e temático, que de maneira constante e/ou
intermitente, atuam num processo de
constantes mudanças.
Embora
alguns suponham que o ciclo do Modernismo tenha chegado ao fim, em virtude da
evolução vanguardista contemporânea, que promove o rompimento com a estrutura
discursiva e dá ênfase ao emprego do elemento não-verbal, Affonso Ávila conclui
suas considerações afirmando: Da lição
modernista há de prevalecer, todavia, a radicalidade prospectiva, aquele ver
com olhos novos, ver com olhos livres que transmitindo como a grande herança de
22, fez há pouco artistas da geração moça reescrever (6).
Mário
Faustino, apesar da moderada postura poética, pertenceu a uma geração que
insistia em promover mudanças radicais, em relação não só a uma tradição que
aos poucos se exauria, mas também a um presente
que resistia às formas inventivas
e mais ousadas. O poeta via-se então numa paradoxal situação, quando afirma:
Como a minha poesia tende a ser mais
comprometida com o passado e o presente que com o futuro (embora inúmeras
experiências muito me interessem e também procure sempre make it new), tento
progredir sem abandonar, um momento que seja, toda a tradição a preceder-me e
procurando revificá-la e aproveitá-la, adaptando-a a novas experiências (7).
Esse propósito
o animava a promover avanços de natureza poemático-construtiva em sua obra, em
sintonia com a poesia inovadora da
década de 1950, sem no entanto fazer escola, ou abdicar do verso. Foi esse
propósito que nos animou questionar os possíveis avanços de natureza
poemático-construtiva verificáveis em sua obra poética, avaliando ainda o grau
de radicalidade do poeta em relação à poesia de seu tempo.
Ao
destacar o discreto, porém inegável propósito de participar com os Concretistas
do processo de renovação da poesia brasileira, sem abrir mão dos vínculos com o
nosso passado literário mais fértil, buscamos nas entrelinhas dessas afirmações
o sentido talvez errante de suas palavras, movido de acentuado sentimento
utópico: fazer poesia comprometida com o passado “adaptando-a a novas experiências.”
Mário
Faustino, embora admitisse a experiência do Concretismo, com o mesmo vigor e
entusiasmo dos poetas desse movimento, acreditava vencer a crise da poesia não
pelo banimento da estrutura formal, isto é, dos versos e das estrofes, mas pela
reificação do próprio verso, dado que o concebia (mesmo em crise) ainda como
importante meio de comunicação poética. A esse respeito, pronunciou-se:
Há por toda parte uma crise do verso, mas
que, em toda parte, ainda se faz, e pode-se fazer melhor ainda bom verso. A
tradição continua, reifica-se, e continua, não se perde um bom instrumento só
porque outro foi inventado, sobretudo se ainda não está provada a maior eficiência do mais novo em relação ao
mais velho (8).
Renovar
a linguagem poética para Mário Faustino seria, portanto, um ato não apenas
inventivo, mas um gesto também produto da apropriação dos modelos mais representativos
da tradição literária de todos os tempos. A propósito, esse ponto de vista é
abordado por Ivo Barbieri, ao ressaltar que:
fazer o novo na experiência poética de Mário
Faustino está condicionado à disposição e ordenamento dos fatos do passado. Daí
entrarem leitura e criação, como atividades integradas, no campo de
experiências do poeta. Selecionar e criar, nesse laboratório, são modalidades,
respectivamente solidárias, da práxis poética (9).
O
projeto de Mário Faustino, estando, pois, atrelada a uma proposta experimental
em termos verbais, era apoiado sobretudo na preservação do verso, adaptado,
conforme o poeta, às exigências contemporâneas. Era necessário, no entanto
ajustá-lo à prática do método ideogramático, isto é, não linear, não
discursivo, mas semelhante à montagem eisensteiniana. Se a poesia Faustiniana
não surge de pronto revolucionária, a exemplo dos notáveis poetas desse
período, Mário Faustino buscou com a sua obra inicial responder aos desafios de
seu tempo, lançados aos poetas do pós 1945. Atento às necessidades de
renovação, sem desdenhar nem se insurgir contra os avanços experimentais no
plano não-verbal, promovidos pelas vanguardas brasileiras, ligou-se
inicialmente com mais interesse às raízes literárias da tradição. A esse
respeito, Haroldo de Campos afirma:
Faustino fez o mais ágil e inteligente
jornalismo literário que jamais vi entre nós. Como poeta, aberto ao novo,
dotado de um manuseio dúctil e sutil das técnicas do poema em verso, capaz do
fragmento e da ruptura, mostrou-se sempre generosamente sensível aos
experimentos mais radicais da poesia concreta, embora na sua produção pessoal
conservasse ainda certos elos com a tradição discursiva” (10).
É nesse
sentido ainda que Augusto de Campos, mesmo em resistência ao caráter, para si
não tão inovador da poesia de Faustino, em “O homem e sua hora”, distingue o
poeta por sua formação diversa, muito
mais poundiana que eliotiana, e por um certo alento barroco, aberto à
experimentação e à rebeldia, que sempre faltaram às aspirações mais
classicizantes daquela época literária (11).
A
radicalidade poética de Mário Faustino deve-se à presença da reflexão crítica
em suas produções, prática frequente entre os poetas de sua geração, que
intentavam inovar a poesia brasileira pela sublimação do verbal. Por essa
razão, veríamos nos seus textos, sobretudo nos da primeira fase, a preocupação
de resgatar o prestígio do verso. Essa preocupação transparece nos poemas
metalinguísticos, mediante os quais o poeta questiona a arte verbal como uma
das possíveis linhas de força da moderna poesia brasileira. Exemplo maior do
que se afirma pode ser constatado no tema do Prefácio, poema de abertura do
livro “O homem e sua hora”, já analisado nessa perspectiva por Albeniza Chaves.
É
importante acrescentar que a experiência de Mário Faustino, coetânea à dos
concretistas, embora trilhasse outras vias, nutria-se, como já frisamos, do
mesmo entusiasmo daqueles poetas. O poeta, revelando entre outras virtudes as
marcas dos melhores padrões da linguagem poética tradicional, afasta-se,
progressivamente, daquela arte consagradora de expressões formais
estereotipadas, ditas neoparnasianas, e se aproxima cada vez mais da arte de
invensão em que, conforme Barthes, cada
palavra poética constitui assim um objeto inesperado, uma Caixa de Pandora de
onde escapam todas as virtualidades da linguagem: ela é portanto produzida e
consumida com uma curiosidade particular, uma espécie de gulodice sagrada (12).
Na condição de poeta
irmanado a essa modalidade de escritura, Mário Faustino reivindica para si o
direito de inventar, criar a palavra poética geradora de novos e inusitados
significados. No poema Mensagem, por exemplo, destacamos os seguintes versos:
Em marcha, heroico,
alado pé de verso,
busca-me
o gral onde sangrei meus deuses:
.......................................................................
Dize
a eles que tombam
Como
chuvas de sêmen sobre campos de sal (13).
A sublimação do verbal
para Mário Faustino não consistia, portanto, numa poesia engendrada de simples
prosa decorada de ornamentos, mas num desafio que se lhe apresentava de modo
contínuo e nunca vencido, por seu caráter perene de busca. Nesse sentido, Benedito
Nunes o considera poeta da poesia: o poeta que pensa – para quem a criação
verbal, encadeamento de vida e linguagem, constituísse numa forma simbólica de
percepção e de concepção das coisas, inseparável das muitas polaridades
existenciais (14). Assim, para o filósofo e crítico, a experiência vivida e
o enigma de sua própria linguagem permeiam toda a poesia de Mário Faustino.
É dessa forma que vemos a
tradição comparecer no verso do poeta, por sua natureza autorreflexiva e por
uma contida forma de expressão. Os avanços faustinianos intentam revigorar o
verso num arranjo de palavras, mediante as quais pudesse sintetizar, suscitar,
ressuscitar, apresentar, criar, recriar o canto, a celebração, a encantação, a
nomeação do objeto (15). O poema Mensagem ratifica esse
princípio teórico do poeta: minar os campos de sal com palavras onde as deixa
cair no chão túmido, para que do caos surja o novo, dele fazendo surgir uma
poesia inventiva, capaz de instaurar novas possibilidades, a fim de atender às necessidades metafísicas,
místicas e míticas do ser humano, num momento em que outras formas de
satisfazê-las encontram-se em evidente decadência (16).
Para
ele, entre o presente e o passado com os quais se dizia mais comprometido
existia o compromisso com o futuro da poesia brasileira, conforme suas
palavras:
“Tudo que faço, por enquanto, tem um sentido
de experimentação, tanto ao nível ético metafísico, psicológico, quanto no
plano estético. Quero ser, ainda por muito tempo, um poeta em formação e em
transformação; um dia, quando estiver mais realizado, como homem e como
artista, então começarei minha verdadeira obra, que espero sirva de alguma
coisa como documento humano e como contribuição para a transformação da
sociedade, da língua e da poesia do Brasil” (17).
Os recuos da poesia de Mário
Faustino em relação ao programa inventivo das vanguardas brasileiras da década
de 1950, em particular do Concretismo, deram-se em virtude do firme propósito
do poeta em preservar a integridade do verso no poema, de modo revigorado, como
instrumento de renovação de nossa poesia.
NOTAS
1. HABERMAS, Jürgen. Modernidade
versus pós-modernismo. Arte em revista, CEAC, ano V, nº7, São Paulo, 1975, p.
86.
2. Idem, op. cit. p. 86.
3. PAZ, Octavio. A tradição da
ruptura. In Os filhos do barro, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 18.
4. ROSEMBERG, Haroldo. A tradição
do novo. São Paulo: Editora Perspectiva, 1974.
5. ÁVILA, Affonso. Do barroco ao
modernismo: o desenvolvimento cíclico do projeto literário brasileiro. In O
modernismo, São Paulo: Perspectiva, coleção Stylus, org. Affonso Ávila, 1985,
p. 29.
6. AVILA, Affonso. Op. cit. 1985,
p. 36.
7. FAUSTNO, Mário.
Poesia-Experiência, org. Benedito Nunes, São Paulo: Perspectiva, 1977, p. 280.
8. FAUSTINO, Mário. Op. cit. 1977,
p. 276.
9. BARBIERI. Ivo. Oficina da
palavra. Rio de Janeiro: Achiamé, 1979, p. 20.
10. CAMPOS, Augusto de. Mário
Faustino: o último verse-maker”. In Poesia, antipoesia antropofagia. São Paulo:
Cortez e Moraes, 1978, p. 40.
11. CAMPOS, Augusto de. Op. cit.,
1978 p. 40.
12. BARTHES, Roland. Grau zero da
escritura, São Paulo: Cultrix, 1974, p. 144.
13. FAUSTINO, Mário. O homem e
sua hora. In Poesia de Mário Faustino. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1966, p. 43.
14. FAUSTINO, Mário. Op. cit. 1977,
p.
15. ________________, idem, p. 62.
16. ________________, idem,
ibidem, p. 277-278.
17. Entrevista de Mário Faustino
à jornalista Ruth Silver, Jornal do Brasil (SDJB), em 16/12/1956, em resposta à
pergunta: “E de sua própria poesia, que me diz? Que está escrevendo agora?”
Mário Faustino, Mário, MF, como queiram, cada um a seu modo.
ResponderExcluircompleto, como o mar...